Mulheres que empreendem
A presença de mulheres nos mais diversos setores da economia está cada vez maior. Segundo os dados do Monitoramento de Empreendedorismo Global (GEM, 2018) - no Brasil já existem 30 milhões de mulheres empreendedoras, este número corresponde a 48,7% de todos os empreendimentos do país.
Além de promover mudanças significativas na economia, o protagonismo feminino neste cenário, gera modificações na sociedade e o mercado também se torna mais inovador, diverso e inclusivo
O Brasil tem a 7° maior proporção de mulheres à frente do próprio negócio, cabe destacar que, uma pesquisa do SEBRAE revela que o número de empreendedoras cresceu 21% de 2000 a 2011, neste mesmo período, o número de homens que empreendem subiu apenas 9%.
Profissionais individuais e pequenas produtoras locais compõe uma parcela importante do empreendedorismo feminino no país, quase metade dos MEI existentes em solo brasileiro são ocupados por mulheres (48%).
Diversos motivos levam as mulheres a abrirem o próprio negócio - como a busca por lucro, independência financeira e satisfação pessoal. O protagonismo feminino gera muita realização e inspira mais mulheres a se tornarem independentes financeiramente.
Entretanto, as empreendedoras enfrentam diversas barreiras nesta jornada, no mercado ainda há muito preconceito e desafios constantes. A diferença salarial e a falta de oportunidade em relação aos homens, ainda é algo que prejudica a inserção feminina no cenário econômico.
Além disto, algumas empreendedoras precisam conciliar a vida pessoal com a profissional, muitas se dedicam aos estudos e ao seu papel econômico, mas também são responsáveis pela administração da casa.
A pesquisa do SEBRAE 2018, revela que apesar de as empreendedoras terem maior nível de escolaridade - 16% superior ao dos homens - recebem 22% a menos que eles. Enquanto as mulheres tiveram um rendimento mensal de R$ 1.831, o dos empreendedores foi de R$ 2.344.
O acesso ao crédito também é um desafio, as mulheres estão à frente dos pequenos negócios e possuem uma menor taxa de inadimplência, ainda assim tem acesso a menores empréstimos, ganham em média 13 mil reais a menos que o público masculino. A taxa de juros para as empreendedoras também é maior - 3.5% a mais do que a dos homens.
A pesquisa aponta também que, apenas 34% das mulheres são donas de negócio
Em cada 10 empreendedores (Homens) do GEM, 6,5 viram “Donos de Negócio”
Em cada 10 empreendedoras (Mulheres) do GEM, 3,9 viram “Donas de Negócio”
Ela é a dedicação em pessoa
Nascida e criada em São Bernardo do Campo, Alannis Favaro tem 18 anos, e já faz parte das mais de 30 milhões de mulheres empreendedoras. Estudante universitária de Recursos Humanos na Fatec, e de Comunicação na Belas Artes, decidiu abrir seu próprio negócio em 2020.
Alannis conta que sempre gostou de lidar com o público, aconselhando e buscando ajudar da melhor forma, sendo assim, optou por Recursos Humanos - ela acredita que a graduação irá ajudá-la a fazer com que as pessoas se desenvolvam e se compreendam profissionalmente.
Buscando se destacar e levar o conhecimento para outras pessoas, no primeiro semestre da faculdade criou uma conta no Instagram, chamada FVRO Recursos Humanos. Nesta página, ela aborda assuntos referentes a sua graduação, e ajuda seus seguidores a entrar no mercado de trabalho, levantando pautas como, elaboração de currículo, qual curso fazer e como aprimorar o perfil no linkedin. Este ano, ingressou na Faculdade Belas Artes, no curso de Comunicação.

Foto: Por Alannis Favaro - Acervo pessoal
Em novembro de 2020, abriu uma loja online de artigos personalizáveis - a GAV, em parceria com Vinicius Camargo, seu namorado, que cuida da confecção dos produtos - enquanto ela conduz a parte de marketing e vendas.
“Está foi a forma que encontrei de colocar em prática o que aprendo na minha formação ” – Destaca.
Com o sonho de alcançar metas juntos, o casal guarda todo o dinheiro das vendas para investimentos futuros. Alannis planeja abrir uma loja física, mas revela que é algo a longo prazo, no momento, pensa em expandir as vendas pelo Instagram. Além de se dedicar a GAV, há também o seu estágio, conta que é difícil se entregar 100% para a loja, mas é algo que irá fazer quando terminar as graduações.
Alannis diz que o empreendedorismo abre muitas portas, e para se ter sucesso é importante aguçar a criatividade, saber vender o seu produto e se dedicar. Diz também que é necessário ter uma imagem consolidada para o público interno e externo.

Caneca feita pela GAV Personalização
Questionada sobre quais dicas ela daria para as mulheres que querem se inserir neste mercado, conta que trabalhar a autoconfiança é extremamente relevante.
“É necessário se conhecer muito bem e perceber que você é capaz de fazer as coisas por si mesma, pois ninguém fará por você”. Comentou.
Ela ressalta que é pertinente que a pessoa acredite que é única e que faça o empreendimento ser único. “Muitas pessoas irão te criticar e dizer que não vai dar certo, não de ouvidos! Acredite em você”.
Alannis diz ainda que o começo é difícil, mas é importante não desistir, os resultados irão aparecer.
“Por muito tempo as mulheres foram submissas, é importante que a gente conquiste a nossa independência para não nos limitarmos e sermos o que a gente quiser ser’’, finalizou.
Ela revela que sonha em ser professora e que também deseja participar de projetos sociais. Através do seu conhecimento, quer ajudar no desenvolvimento das pessoas, de modo que elas encontrem seu propósito. Planeja levar a FVRO Recursos Humanos para as escolas públicas, e quer instruir os jovens, fornecendo dicas para os inserir no mercado de trabalho e acadêmico.
De Rio das Ostras para o mundo
Puxando os genes de vendas de seu pai, Ana Mercês é dona de uma loja online de moda intima. Conta que desde criança tinha duas certezas: queria ser veterinária e que gostava de vender – ela acabou seguindo caminhos diferentes. Atualmente, apesar de ser empreendedora, pensa em fazer administração – segundo ela, o curso irá ajudar a melhorar o seu desempenho na loja.
Carioca de berço, Ana mora em Rio das Ostras, região dos Lagos no Rio de Janeiro.
Em 2019, ela se formou como técnica em meio ambiente pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), no mesmo ano tentou passar em medicina veterinária na federal, mas não conseguiu. Em 2020 começou mais um curso técnico pelo IFF, agora como Segurança do Trabalho, atualmente ela trancou o curso para se dedicar 100% a sua loja de moda intima - a SHE. Ana diz que com seus 20 anos de idade seguiu um caminho totalmente diferente de tudo que imaginava e estudou.
A loja começou em 2018, com um orçamento baixo, no início ela anunciava seu trabalho em grupos do Facebook, vendia para amigas e parentes. Com o tempo foi recebendo algumas indicações e começou a vender para colegas e professoras na escola. O diferencial logo de cara foi ela conseguir oferecer lingeries bonitas e com o preço acessível.
Ana conta que não tinha renda para manter um estoque na época, então trabalhava por encomenda, a cada 15 dias tentava juntar o máximo de pedidos possíveis e viajava para comprar as peças. O período foi complicado, nem sempre ela conseguia muitos pedidos, as vezes eram apenas 2 ou 3, isso a desmotivava um pouco, mas seus pais a incentivavam e a ajudavam.
Explicou que parou com as vendas em 2019, quando começou a se dedicar para o Enem. Todas as suas amigas estavam focando em algo que realmente tinha chance de dar certo, enquanto ela sentia que construía um caminho às cegas. Entretanto, no fim deste mesmo ano, ela retomou as atividades da loja.

Ana divulgando as entregas da Lojinha SHE, a foto é de uma semana antes da publicação no Twitter - Acervo pessoal
Em maio de 2020, no auge da pandemia no novo coronavírus, Ana fez uma postagem no Twitter divulgando a loja SHE. O tweet rendeu mais de 12 mil seguidores no Instagram em questão de dias, nesta época ela criou o site para dar conta da demanda.
Depois do tweet ela teve um aumento de aproximadamente 400% nas suas vendas, em relação a três meses anteriores e 95% dos pedidos feitos eram para fora do estado - dois dias após a publicação ela fez 60 envios.
Ana revela que já sofreu muito com a baixa autoestima e que sente a necessidade de fazer com que as mulheres se amem e se enxerguem. No início recebia mensagens como “tenho os seios pequenos” ou “pena que não tenho corpo para isso, sou barriguda”. A solução que Ana Mercês encontrou foi trazer modelos com corpos reais para a loja, uma vez que as meninas não se sentiam representadas com os modelos padrões de outras lojas. A partir disto, ela observou que os resultados foram positivos.
Explica que encontrou o seu propósito de vida por meio do empreendedorismo, agora recebe mensagens constantes de meninas que contam que a autoestima melhorou muito após a compra das peças e que não imaginavam o poder que uma lingerie tem.
“Eu entendi que esse é meu propósito, sabe? Poder mudar a forma que alguém se vê, fazer com que se olhem com mais amor, com olhos de admiração e reconhecimento. Quebrar o conceito de que lingerie é para se mostrar para homem e que só usa quem tem corpão, é o meu maior objetivo como mulher e empreendedora”.

Modelos da SHE em um ensaio fotográfico para a loja
A curto prazo sua meta é delegar tarefas e chamar pessoas para trabalharem com ela, também tem o sonho de trazer mais peças plus size para a loja, ela explica que o mercado tem muita deficiência de produtos nessa categoria. A lojinha SHE, tem como objetivo abraçar a todas e não deixar nenhum grupo de fora da comunidade.
Comenta que muitas meninas plus size já são excluídas pelas grandes marcas, ela não quer que isso aconteça no seu empreendimento.
A longo prazo, deseja abrir a loja física e transformá-la em marca, produzindo as próprias lingeries.
“A diferença que quero deixar é justamente o que aprendi nesta jornada, é reconhecer que devo e posso me tratar com mais amor, mais cuidado, sem me comparar. Reforço que não existe corpo de praia, o que existe são corpos diversos e que combinam com tudo! ” – Finalizou.
Perguntada sobre dicas para quem quer abrir seu próprio negócio, ela revela que é importante não ter medo, no início você vai errar muito, mas o que vale é aprender com os erros. Ser sábia com as finanças é outro ponto, conta que o dinheiro da empresa não é seu, é importante reinvestir o máximo que conseguir.
Por último, comentou que é de grande importância que a pessoa não desista, o primeiro ano é sempre o mais difícil, mas com o tempo e paciência os resultados começarão a aparecer.


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